sábado, 5 de julho de 2014

Depois do furacão

     Tantos planos traçados para 2014... Nunca poderia imaginar terminar o primeiro semestre desse jeito: uma lacuna enorme chamada Léa.
     Foram seis meses, desde o diagnóstico até o dia em que ela, minha mãe, "voltou pra casa". Só no mês de maio, foram duas internações. Em Junho, a última, literalmente. Ela foi forte até o último momento, mesmo quando dizia o contrário. Ah, mamãe... Sua "fraqueza" me ensinou que EU era mais forte que pensava, ao mesmo tempo em que me sentia fraca diante do seu choro. Como você me ensinou!
      Hoje, parece mentira que tudo aconteceu. Às vezes me pego tomando o caminho do hospital, como se estivesse indo vê-la. Às vezes tenho a impressão de que ela ainda está lá, que é uma questão de tempo para que receba alta e volte pra minha casa, pra que eu cuide dela. Não demora muito e a sensação de vazio chega. Vou para o seu quarto e não a encontro. Não tenho mais suas roupas aqui, nem seu cheirinho, nem seu riso solto, contagiante, nem o afago gostoso em minha cabeça... O furacão passou e levou minha mãe com ele.
     E como acontece em lugares devastados por furacões, é preciso recomeçar. Eu, em particular, preciso sair dos escombros e me erguer, apesar das feridas, da dor, do medo... É preciso sacudir a poeira, recolher o que restou da força que tinha e seguir.  É um novo ciclo, uma nova etapa e, sem dúvida, um grande desafio.
     O que me espera na próxima curva da estrada? Eu não sei... e só saberei se tomar a decisão de sair do lugar. Um passo de cada vez, um dia após o outro... E assim, a caminhada, por si só, trata de mostrar as próximas lições de vida que tenho que aprender.
      Enquanto isso, vou caminhando... E você, Pretinha, não esqueça: vamos nos encontrar em breve... Me espera, que eu estou chegando.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Sobre idas e vindas

     Mais uma noite aqui, neste hospital... As horas não passam, o corpo, exausto, não consegue relaxar. Os sons do hospital assustam... De repente, ouvimos gritos pelo corredor. Uma filha chora a perda da sua mãe. Fui consolar a moça, sem saber exatamente o que falar... Na dúvida, um abraço sempre é o melhor discurso.
     Não fomos preparados para isso. A separação é dolorosa, a saudade corrói, o vazio é incomensurável. Só conhece essa dor aquele que já teve que enfrentá-lá.
     Mas tenho aprendido e repetido isso constantemente: a nossa tristeza não pode ser comparada à alegria daquele que vai para a eternidade. Nós, que somos salvos e conhecemos ao Deus Eterno, temos esta certeza. É "voltar pra casa", é gozar de uma vida plena, feliz, sem o sofrimento que encaramos aqui. Para Deus, pouco importa a forma como ele chama os seus: se é de repente, dormindo, num acidente, após dias num leito de hospital... Nós é que classificamos a morte numa escala de sofrimento. Mas Deus só quer mesmo receber este amado em seus braços.
     E, dessa forma, nos braços do Pai Eterno, que estão tantas pessoas queridas e especiais. Nenhum desses trocaria a alegria de estar no céu com a oportunidade de voltar e realizar os sonhos não concluídos.
     Jesus está voltando a todo instante. Volta para o vizinho, para o amigo da faculdade, para um ente querido... com estes, não temos mais com que nos preocupar. Precisamos, sim, escolher agora para onde queremos ir depois de partir.
     Eu já escolhi. "Vó, pode me esperar aí... daqui a pouco estaremos juntas"...

terça-feira, 25 de março de 2014

Depois do furacão

     E num belo dia, ele se levanta e diz: "Estou curado"!
     Apronta-se, veste sua roupa de autoconfiança e vai encarar o mundo que ficou esquecido durante o fenômeno "La Depresión". "Foram tempos difíceis", relembra... Ficou meses trancado em sua casa, na cidade Soledad, o lugar mais devastado pelo furação. Foram dias, meses... anos?... A noção do tempo se perdeu juntamente com suas memórias... Pelo menos, era assim que pensava.
     Depois de, finalmente, encontrar algo adequado para usar, ele encontra-se à porta de sua casa, pronto para encarar o mundo que o espera. Hesitante, pensa se vale a pena realmente sair... Afinal, passara tanto tempo ali sozinho, sem ninguém... Estava até "confortável" viver aquela rotina...  Sacudiu a cabeça, como quem quisesse espantar um inseto voador, e abriu a porta de uma vez. Seus olhos não superaram a claridade, já estavam acostumados à escassez de luz. Precisou usar óculos escuros para se adequar lentamente. O cenário que encontrou era espantosamente diferente do que imaginava. Curiosamente, "La Depresión" só havia atingido sua casa! Obviamente, alguns lugares mostravam sinais de mudança, de desarrumação natural, mas nada comparado ao que imaginava. Incrivelmente, a vida continuou enquanto ele permaneceu trancado em sua casa.
     E, enquanto caminhava por aquele mundo novo que encontrara, tentava organizar mentalmente uma nova rotina, um novo modo de encarar a realidade. Caminhava, pensava... caminhava mais um pouco, sem rumo, sem destino, até que se deparou com um cenário bastante conhecido. Era uma praça que costumava frequentar e passar algumas tardes para admirar o pôr do sol. Sua mente foi inundada por ondas e mais ondas de lembranças, palavras, sorrisos, carinhos... e havia aquela árvore. Sim, ela ainda estava lá! As iniciais gravadas permaneciam ali! Instintivamente, como quem toca uma ferida, levou a mão à inscrição no tronco daquela nogueira... E o que eram ondas de lembranças transformaram -se em lágrimas e tsunamis de emoções.
     Ele correu. Virou as costas a tudo que aquele lugar representava e correu o mais rápido que pôde. Tudo que queria era voltar para sua casa, para seu mundo, para dentro de si e esperar... Não sabia exatamente pelo quê esperar, mas sabia que o tempo traria a cura de que precisava. Por quanto tempo? Também não sabia dizer... A única coisa de que tinha certeza agora era da dor que dilacerava seu peito e que não havia remédio para aliviar essa dor.
     Finalmente em sua casa, volta à velha sala e ao seu sofá já desgastado pelo uso excessivo. Mais algumas estações até estar novamente curado... Ou não.
     Agora, cabe ao tempo, sábio tempo, fazer o seu trabalho...